18.8.11

Da guitarra à viola

Desde muito novo curtia os sons cortantes de guitarra nas músicas. Crescido em igreja evangélica, era natural que ali tivesse meus primeiros contatos com a música, e consequentemente com alguns instrumentos musicais (embora não toque nenhum). Quando tocavam nalgum culto uma música mais agitada, com uma levada mais rock, e, por milagre, rolava algum solo, meu peito se aquecia em uma alegria inexplicável.

Mais tarde, iria conhecer as bandas de rock cristãs – músicos evangélicos e católicos que abordavam temas cristãos em suas letras. Só muito tempo depois começaria a apreciar canções vindas de fora das cercas evangélicas. Daí passei a ouvir de tudo! Tudo que fosse de qualidade, com boas letras e instrumental vigoroso. E no que diz respeito ao rock’n’roll, nunca dispensei bons solos de guitarra.

Não imaginava que meu leque musical se ampliaria ainda mais. No entanto, quando fui morar longe de minha querida Minas Gerais, em terras mato-grossenses, para matar a saudade, ouvia de tudo o que fazia menção ao meu Estado. Foi aí que meus ouvidos – muito mais meu coração – se abriram para a música caipira. A música sertaneja, feita por gente do sertão, cantando as realidades da vida sofrida no interior do Brasil, estava impregnada de poesia. E como eu amo poesia...

Meus preconceitos musicais foram sendo dissipados diante da emoção, do afeto que me ligava à minha origem mineira, e das inclinações de minha alma que, como diz a Adélia Prado em um de versos, “tem natureza triste”. Assim como a Adélia, devo ter comido “lágrimas de sal no leite da minha mãe”, pois tudo o que é choroso me atrai. E não há instrumento mais choroso que o som da viola. Não há canções tão saudosistas quanto às sertanejas. Em algumas canções, reconheço aquela saudade atroz encontrada também nos textos prosaicos de Rubem Alves. E como o próprio Rubem disse: “saudade é a alma dizendo para onde ela quer voltar”. A saudade, essa constante companheira, me ofertou esse remédio, as modas caipiras.

De lá para cá, tenho me interessado por tudo que seja arte regional. Tudo o que cante as belezas e a diversidade desse meu Brasil. Assim, da guitarra à viola, tenho aprendido a ouvir de tudo o que se produz em terras tupiniquins. O rasqueado cuiabano, o samba cheio de molejo produzido no Rio, as músicas gauchescas, o hip hop saído das favelas paulistanas, e, claro, as modas de viola do interior, o aboio cheio de angústia cantado pelos boiadeiros do Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas.

Aprendi ouvir a beleza cantada nas elaborações desses singelos poetas brasileiros... Mas quando falo de música sertaneja especialmente, deixe-me deixar algo bem claro, não me refiro a esse sertanejo dito universitário. Até porque de sertanejo não tem nada nem tampouco de universitário, por razões óbvias que nem preciso explicitar.

Música boa é música que tem letra, melodia e instrumental primorosos. Cada vez mais rara, tenho encontrado nos antigos clássicos o prazer que outrora encontrava apenas nos livros de poesia. Não poderia encerrar sem antes deixar aqui uma dentre as belas canções que me tem inspirado...

Um comentário:

Rubinho Osório disse...

Essa música - do Renato Teixeira com o Almir - é palavra sagrada pra mim... é guia filosófico pra vida... um achado artístico e espiritual.

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