26.8.11

UFC no país do Futebol


Um esporte vs uma religião

No final desta semana o Brasil receberá pela primeira vez o UFC – Ultimate Fight Champinchip. O evento de lutas de Artes Marciais Mistas (MMA) será recebido no Rio de Janeiro, local em que suas raízes estão cravadas, por conta do surgimento da modalidade no berço da família Gracie. Sem dúvida alguma, será um grande espetáculo, principalmente levando-se em conta a participação dos lutadores brasileiros Maurício Shogun Rua, Minotauro Nogueira e Anderson Silva, que estão entre as maiores estrelas do MMA.

O esporte tem crescido de tal maneira que alguns dos envolvidos nele têm “vaticinado” que em breve a popularidade do UFC ultrapassará a do futebol. Bem, no país do futebol, tal proclamação tende mais para uma heresia do que para uma profecia. E embora aprecie bastante as lutas de MMA, não posso concordar com tal afirmativa.

De fato, heresia é a melhor palavra para definir essa afirmação. Sim, a palavra adequada dentro de nosso país. Isso porque aqui futebol e religião caminham lado a lado. Aliás, a bem da verdade, pode-se dizer que futebol e religião se misturam, se complementam, se integram e daí resulta no que assistimos nos estádios e inconscientemente repassamos adiante.

Terços, rezas, mandingas, sempre foram comuns nas arenas futebolísticas. Os católicos e adeptos de cultos afros sempre deixaram suas marcas e expressões de fé nos estádios brasileiros. Com o aumento dos evangélicos, suas marcas também se tornaram visíveis não apenas fora mas também – e principalmente – dentro dos gramados. É comum ouvir jogadores, em entrevistas, dizerem que são gratos a Deus pela vitória, pelo gol, pela classificação. Muitos atestam que Deus foi quem proporcionou a “benção da boa fase” em suas carreiras e as conquistas que amealharam.

O Palmeiras têm o São Marcos, já teve Ademir da Guia, o Divino. O Corinthians, por sua vez,  é Todo-Poderoso, já o São Paulo, entra sempre em campo com a proteção do apóstolo que lhe dá o nome. As preces feitas no vestiário ou antes de decisões por cobranças de pênaltis são tão fervorosas que,ainda que os jornalistas não consigam adentrar ao campo para introduzirem seus microfones na roda de oração, as vozes dos jogadores são ouvidas em uníssono.

Entre os evangélicos, é comum ouvir brincadeiras como: “Deus é fiel!” – fazendo menção à torcida organizada do Corinthians; santistas crentes também alegam: “Jesus disse: sede Santos como eu sou Santo(s)”. Brincadeiras a parte, no Brasil futebol é religião e religião permeia todo o mundo dos gramados.
Certo estudioso da religião chegou a afirmar que achava uma indelicadeza chamar um estádio de templo.

Como, por exemplo, se faz com o Maracanã. Contudo, talvez o fato de ele não ser brasileiro possa indicar seu estranhamento, porque aqui, em terras tupiniquins, há templos católicos, evangélicos e de diversas outras religiões, e também há templos do futebol.

E quase ninguém se importa com isso. Outrora, muito outrora, evangélicos eram desaconselhados (até proibidos) a jogar futebol, assistir ou mesmo ir aos Estádios nos domingos (Dia do Senhor), hoje contudo eles não têm mais crise com isso. Ao invés disso, não apenas assistem, praticam, como também são, muitas vezes, os atores centrais desse espetáculo.

Lamentável é que, como em qualquer religião ou ideologia, não raras vezes assistimos cenas de irracionalidade promovidas por torcidas organizadas, torcedores vândalos isolados e até mesmo por jogadores desequilibrados. Mas é assim, onde há o ser humano há vestígios de exageros. No entanto, o saldo final parece bastante satisfatório. E assim como a fé religiosa, o futebol continua se proliferando e se fortalecendo Brasil afora.

De tal modo, acho muito difícil o UFC conseguir deixar em segundo lugar na preferência do brasileiro algo que é passado de pai para filho como tradição, seguido como religião e honrado como se fosse a bandeira de uma nação.

Vou assistir às lutas nesse sábado, faço votos de que os brasileiros continuem vencendo, e , assumo, a cada dia me interesso mais por esse esporte, mas sou realista... O UFC só será mais popular do que o futebol no dia em que cada criança pobre deste país tiver acesso a uma luva especial para treinos e a um ring ou octógono (ainda que improvisados) para poder treinar sem muitos custos. Enquanto isso, em cada canto do nosso território, crianças pobres ou ricas, jovens ou mais velhos, continuarão jogando futebol do jeito que dá, ainda que seja no campinho de terra com bola remendada, ou mesmo no passeio de casa, com bola feita de meias velhas ou saquinhos plásticos com pano dentro.

O que faz do futebol uma religião é a certeza de que, assim como o seu “ídolo”, qualquer pessoa, independente de classe social, credo, etnia ou sexo, pode ir a um pedaço de chão e tentar repetir os gestos prodigiosos de seu “ídolo” e quiçá, um dia, também estar lá, no grande templo em que homens mortais se transformam em semideuses, imortalizando seus nomes com jogadas fabulosas marcadas pelo suor, pela dor e magia.

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