31.12.11

Feliz Ano Novo (com o adequado realismo)


Dedicar-se à realidade é sempre algo bastante difícil. Por vezes, a ilusão e o autoengano nos parecem muito mais suaves e agradáveis. Não obstante, mais cedo ou mais tarde deveremos nos dedicar as coisas como elas de fato são. Infelizmente, as mentiras que contamos para nós mesmos, ou aquelas contadas por outros e que acabamos aceitando, um dia se dissipam. Quanto mais tarde aceitarmos a verdade dos fatos, maior será nossa frustração e mais dolorosa será nossa recuperação.

A cada ano que passa, deparo-me com uma série de coisas bastante desagradáveis. Descubro traumas pessoais cuja existência nem imaginava, vejo desvanecerem como o orvalho diversas convicções outrora inabaláveis, percebo que coisas as quais sempre reverenciei não são tão dignas de reverência quanto eu achava.

Meu rol de amigos parece ser a cada ano bem menor, algumas das pessoas as quais eu denominava como amigos hoje no máximo posso chamar de colegas. Minha família, infelizmente, é bem menos unida, acolhedora e amável quanto eu quis acreditar e como, talvez na tentativa de não aceitar a realidade, eles mesmos tentam sustentar. Vale ressalvar, a realidade nunca será sempre a mesma para todos. Até porque nem todos aceitamos aquilo que de fato é. Além disso, cada ponto de vista é à vista de um ponto (como já disse alguém). Enquanto o chiqueiro aparenta ser um lugar de tormento para delicadas ovelhas, para porcos de cheiro agreste se mostra como lugar de satisfação.

O problema de se dedicar à realidade é que ela soa desagradável. De modo que não acredito ser aconselhável dizer aos nossos familiares, especialmente pais e irmãos, que nossa família se parece mais com uma Babel – um lugar em que cada um fala uma língua e ninguém se entende – do que de fato com um grupo amigável no qual podemos nos abrigar em todo e qualquer momento.

A sinceridade raramente é bem vista. Desmascarar ilusões é como derribar castelinhos de areia. Quem vive neles acredita sempre que irão durar eternamente. E mais: assumir a verdade é dar oportunidade para que, em estando todos doentes, escolham purgar seus pecados naquele que usa de boa-fé e proclama a verdade dos fatos (obviamente denunciando as hipocrisias). Todo grupo necessita de loucos e endemoniados para se sentir mais são, inclusive a família.

Além disso, compreender as coisas como elas são não significa que devamos correr o risco de assumi-las diante de todos. Pode ser por demais desgastante e ainda corremos o risco de não levarmos em conta nossas próprias falhas e defeitos. Geralmente, também somos responsáveis por boa parcela dos problemas que detectamos no mundo que decidimos chamar de real. Assim sendo, o melhor a se fazer é buscar trabalhar nosso próprio interior a fim de que, assumindo o real, trilhemos nossos rumos focados no desenvolvimento pessoal.

Deste modo, percebo minhas falhas. Minha ingenuidade me leva a pensar sempre que tenho o poder de concertar as coisas. De conciliar brigas e conscientizar pessoas, especialmente quando se trata das minhas relações familiares. Percebo hoje o quanto essa luta pode ser cansativa e inglória. Um vaso de barro pode ser refeito, mas uma taça de cristal, não. 

Qual a dica a respeito disso? Não há outra senão a de deixar o cristal (permanecer) quebrado, ressignificar sua aparência agora alterada e seguir adiante. Não podemos consertar o mundo, apenas a nós mesmos. Parece algo bastante pessimista, mas insistir em consertar aquilo que já se mostrou inconsertável, além de não ser nada sábio, também termina sempre com o pioramento da situação. Às vezes temos que nos livrar da “síndrome de salvador da pátria”.

Aceitar a realidade, em muitos casos, resultará em assumir que as coisas não tem jeito, que deveremos construir outras estradas e deixar como estão aquelas que se tornaram intransitáveis ou mesmo de difícil trânsito. Ajudando-nos, temos chance de ajudar também aos outros.  E se conseguirmos sarar-nos de nossas dores e traumas, teremos feito muito – pois eis aí algo bastante complexo.

Portanto, entro em 2012 pedindo a Deus "serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para mudar aquelas que posso e sabedoria para distinguir umas das outras". Desejo o mesmo àqueles que almejam se tornar melhores como indivíduos e, ajudando a si mesmos, estão dispostos a contribuir com o seu próximo. Ainda que não pareça, com fé e esperança, desejo a todos nós um Feliz Ano Novo. Acima de tudo, um ano de graça e paz!

Um comentário:

Jacqueline Emerich disse...

O seu texto é muito bom. Profundo e cortante. Parabéns!

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