6.1.12

Politicagem evangélica (fatídicas lembranças)

Quando penso na participação evangélica na política, não consigo deixar de revisitar algumas experiências pessoais bastante “interessantes” relacionadas a esse assunto. Algumas das quais, devido o envolvimento que tive, sinto vergonha e até mesmo ira.

Lembro-me da candidatura de Anthony Garotinho à Presidência da República. Garotinho, quando entrevistado pelas emissoras de tevê em rede nacional dizia-se um candidato de todos (evangélicos, católicos, espíritas e por aí vai). Quando presente em eventos evangélicos, dizia-se o candidato dos crentes, fazia menção ao Salmo que diz “bendita a nação cujo Deus é o Senhor” (Sl 33. 12), sugerindo que ao elegê-lo, o povo brasileiro também estaria optando por um projeto de Deus para o país.

Assistir os discursos do Garotinho era sempre uma surpresa, liso como bagre ensaboado, ele nunca ficou na berlinda, sabia contornar qualquer aparente contradição e se adaptar ao meio em que estivesse. Um político no sentido mais pejorativo possível da palavra. Não obstante, votei nele e até fiz uma “boquinha de urna” em seu favor, seguindo, obviamente, “sugestão” da denominação pentecostal da qual eu fazia parte, que apoiava o dito cujo (hoje sinto uma vergonha horrorosa quando lembro que votei nele, e ainda mais terrível quando lembro que fiz campanha e boca de urna para o camarada).

Outro episódio lamentável foi quando o pastor da minha denominação (da qual saí faz tempo), por instrução da liderança nacional da igreja, que tinha e tem projetos megalomaníacos envolvendo o poder político, se candidatou a vereador. A liderança das igrejas pentecostais sacaram logo que a candidatura de membros não significava que estes receberiam votação expressiva por parte dos seus irmãos de congregação, assim a figura dos pastores, munida das características caudilhistas (herdadas de nossa cultura e assumida por muitas igrejas), angariaria maior porcentagem de votos dos membros do que simples membros comungantes.

Eles estavam certos. Aquela igreja, que não havia conseguido eleger nenhum político até então, agora tinha seu pastor como vereador da cidade. Os meios utilizados para conseguir tal feito não diferiram em nada da política praticada pela grande parcela de políticos brasileiros. O curral eleitoral eclesiástico é, sem dúvida alguma, o mais fácil de formar e manipular. Recordo-me, por exemplo, que muitas vezes, após o fim do culto, um dos líderes da igreja subia no púlpito e, como de praxe em algumas igrejas, pedia aos membros que repetissem aquilo que ele iria dizer; mas nesse caso, era o número do nosso pastor, que se candidatara a vereador. Algumas falas na igreja sugeriam que quem não estivesse com o pastor, estava fora da visão e, por conseguinte, contra a liderança instituída por Deus. Esse tipo de conduta, sobretudo em igrejas pentecostais, possui terrível carga de significados (rebelião, pecado de bruxaria, maldição, etc.).

Em quase todos os anos de eleições, correm alguns boatos nas igrejas de que grupos homossexuais irão conseguir que seus representantes no Congresso votem leis que irão obrigar ministros religiosos a oficializar cerimônias de casamento entre pessoas do mesmo sexo, sendo submetidos à prisão aqueles que se negarem a isso (uma grande falácia, visto que, ainda que fosse essa a intenção desses grupos, tal intento seria inconstitucional). Outra alegação é que os políticos não evangélicos buscariam cercear a liberdade de culto elaborando leis que visariam restringir os horários de funcionamento das igrejas e a utilização de aparelhos de som devido ao incômodo que geram para seus vizinhos (algumas realmente são bastante incômodas). Todos os anos de votação essas estórias são inventadas e despejadas nas igrejas, como meio bastante eficiente para assustar cristãos incultos e desavisados a fim de poder manipulá-los.

Hoje conheço alguns evangélicos que são bons políticos, contudo nutro profunda desconfiança de qualquer um que se autointitule como “político evangélico”. Esses últimos, que geralmente fazem questão de anunciarem sua afiliação religiosa, não têm maiores intenções além das que estejam ligadas a seus projetos pessoais de sucesso financeiro e, em segundo plano com a finalidade de manutenção do cargo, agradar seu grupo religioso posicionando-se negativamente a respeito de direitos homossexuais, pedofilia e aborto (temas importantes, contudo supervalorizados e mal tratados pelos evangélicos); os que assumem cargos menores preocupam-se em garantir terrenos para as igrejas, liberação de verbas para seus projetos e contratação de membros influentes destas comunidades para assumirem funções na máquina administrativa.

Não consigo ser otimista quanto a isso tudo. Apenas lamento ter participado, de uma forma ou de outra, e por vezes me iro quando paro para pensar o quanto me deixei manipular. Contudo, hoje mais maduro, consciente dos fatos, sinto-me forte para me posicionar e até mesmo para confrontar meu passado. Não temo os atores que outrora influenciaram minha vida. Quando escrevo sobre tais coisas, faço-o na esperança de gerar reflexão a respeito desses fatos e motivar aqueles que, sentindo-se vivos o bastante para fazer parte da história, posicionem-se e não permitam que tais coisas ocorram em suas comunidades de fé; que ao menos não permitam que elas ocorram sem obstáculos.

Por uma política limpa, honesta, por uma atuação cristã madura, consciente e, acima de tudo, verdadeiramente ética (realmente cristã), por uma história contada com uma narrativa diferente; sejamos ativos, participantes, corajosos, resistentes, protestantes, opositores da má conduta política, denunciadores dos crimes eleitorais cometidos por politiqueiros, sejam eles quem for.  

3 comentários:

Chico disse...

Disse tudo Humberto!! Gostei muito das novas postagens no blog.. Grande abraço..

Humberto Ramos disse...

Fala Chico,

Tudo bem, cara? Que bom ter você por aqui. Espero que esteja tudo bem contigo e com toda sua família.

Forte abraço, manão!

Humberto Ramos disse...

Por uma política limpa, honesta, por uma atuação cristã madura, consciente e, acima de tudo, verdadeiramente ética (realmente cristã), por uma história contada com uma narrativa diferente; sejamos ativos, participantes, corajosos, resistentes, protestantes, opositores da má conduta política, denunciadores dos crimes eleitorais cometidos por politiqueiros, sejam eles quem for.

Related Posts with Thumbnails