17.1.12

Sobre o churrasco na Cracolândia (e outras manifestações populares)


Sábado passado (14) estive na Cracolândia e pude acompanhar a segunda versão do “Churrasco de Gente diferenciada” (sobre a primeira versão, clique aqui), dessa vez em protesto pela decisão política do Governo de São Paulo de varrer os mendigos e usuários de drogas da região central da cidade por meio da ação policial. Para quem não conhece o local, a Cracolândia fica na nas proximidades da famosa rua Santa Efigênia e da Estação Luz, do Metrô. 


O caso


A justificativa para esse tipo de atuação é o desmantelamento do tráfico e repressão a criminosos que, de fato, agem na Cracolândia. No entanto, os mais atingidos pela nova política da cidade em relação ao tráfico de drogas são os usuários, que em sua maioria constituem um enorme grupo de dependentes químicos profundamente tomados pelo vício e que, sem ajuda especializada, não tem qualquer chance de recuperação.

A ação da polícia militar se restringe a evacuar a área, resultando apenas na dispersão dos dependentes químicos pela cidade. Pelas informações que surgem por meio das reclamações de moradores de outras regiões, pequenas Cracolândias têm sido formadas em diversos pontos do Município. Sendo bem sucinto, não revela outra coisa senão a intenção das autoridades competentes de varrer o lixo pra baixo do tapete!

Além disso, a suposta alegação de que a ação visa combater o tráfico de drogas tem sido questionada devido os indícios de que a varredura tem como fim “limpar” aquela região visando às rentáveis possibilidades do mercado imobiliário. Ou seja, ao que parece tudo não passa de uma estratégia impulsionada pela especulação imobiliária.


O protesto 


O Churrasco, organizado via redes sociais, teve apenas um efeito simbólico. A meu ver, na prática não terá resultados significativos. De fato, a fim de influenciar realmente as decisões do governo estadual e municipal, uma manifestação mais organizada em frente à Prefeitura, diante do Palácio do Governo ou em frente à Assembleia Legislativa do Estado seria bem mais eficiente.

Não obstante, talvez seja melhor um protesto tímido e sem maiores consequências do que protesto nenhum. Ainda assim, é sempre válido refletir, repensar e rearticular ações como essas.

Estive presente também no final do ano passado na “Marcha Contra a Corrupção”. E embora tenha marchado e gritado juntamente com os manifestantes presentes na Avenida Paulista, não me furtei a questionar tal iniciativa. Penso que simplesmente marchar contra a corrupção parece vago demais. Qual corrupção? Onde? Quais os corruptos que queremos que sejam punidos?

Durante a marcha, alguns nomes foram mencionados: Sarney, Renan Calheiros, Collor, dentre outros. Mas quais atos desses personagens políticos queremos que sejam revistos? O que desejamos que seja feito a fim de reparar danos e prejuízos? Quais as penas que desejamos? Cassação do Mandato? Enfim...

Obviamente que esses nomes foram citado apenas por constituírem símbolos clássicos da corrupção crônica instalada há séculos no Brasil. Da mesma forma que não invalido a manifestação ocorrida na Cracolândia, não invalido também a “Marcha contra a Corrupção”. No entanto, temo que seja apenas mais uma movimentação com intuito de alavancar futuras candidaturas políticas, ou seja, plataforma política para que determinadas figuras ganhem seu espaço na política partidária. O oportunismo egoísta está por toda parte...


Concluindo, a onda de manifestações populares que ocorre por todo o globo (não só aqui no Brasil), liderada especialmente por jovens, tem empolgado e trazido esperança para muita gente que já havia enterrado suas expectativas de melhoras político-sociais. No entanto, até que ponto a multiplicação dessas ações não compromete sua qualidade? É preciso ficar atento para não estar apenas engrossando o rebanho de mais um tipo de tentativa de formar currais eleitorais, nem mesmo podemos permitir que manifestações e protestos de rua se tornem pura e simplesmente mais uma modinha pós-moderna. Perdendo, assim, sua significância.

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