21.7.12

As eleições e a religião: desafios de um país Laico

Qualquer eleitor que tenha se atentado para as últimas eleições deve se recordar como a religião foi um fator importante, especialmente no segundo turno da campanha presidencial. Embora não tenha sido, como alguns declaram, algo decisivo, surgiu como aspecto importante e influenciador dos discursos dos candidatos.

Para quem não se lembra, questões envolvendo homossexualidade e aborto forçaram os presidenciáveis a se posicionar sobre os temas polêmicos. A então candidata Dilma, agora presidenta, pronunciando-se contra o aborto, fora acusada por alguns veículos de imprensa e movimentos feministas de retroceder a fim fechar alianças e atrair votos de grupos religiosos conservadores – especialmente os evangélicos e católicos.

Diante disso, passamos a assistir no Brasil algo já muito comum, por exemplo, nos Estados Unidos: o lobby de cunho religioso. Seria ingênuo, contudo, imaginar que os únicos interesses em jogo são assuntos de importância religiosa, não obstante é precisamente por meio desses temas que políticos representantes de alas religiosas conservadoras tiram proveito para firmar alianças e, de quebra, apresentarem-se ao seu eleitorado como guardiões dos valores tradicionais da família. Em outras palavras, lançam mão de tais oportunidades a fim de legitimarem-se no poder. 

Bom seria se pudéssemos dizer que “o que passou, passou”. Mas como na política quase tudo o que passa pode voltar, é certo que tais temáticas tornarão ao debate público nas eleições municipais deste ano. Em São Paulo, especialmente, o cenário político começa a se revelar bastante propício para tal. Levando-se em conta que todos os candidatos procurarão dialogar com os mais diversos grupos sociais, especialmente os religiosos, que hoje aparecem na cena política com mais alarde, alguns dos assuntos levantados nas eleições passadas deverão aparecer outra vez. Talvez apenas travestidos de outras roupagens, mas ainda sim muito presentes.

O candidato Haddad, do PT, por exemplo, durante sua gestão no Ministério da Educação, fora alvo de críticas de conservadores devido à proposta de inserção do chamado “Kit anti-homofobia” – conhecido também como “Kit Gay” –nas escolas públicas a fim de conscientizar adolescentes acerca da homossexualidade. A medida visaria combater o preconceito e a homofobia. No episódio, a bancada evangélica, juntamente com setores conservadores da Igreja Católica, manifestou-se duramente contra a distribuição do Kit. A pressão resultou na desistência da distribuição do material, por parte do governo, alegando que o Kit não seria de fato adequado aos estudantes. 

O candidato José Serra, do PSDB, por sua vez, parece ter bons relacionamentos com grupos religiosos reacionários. Quando presidenciável, chegou mesmo a receber o apoio público do pastor midiático Silas Malafaia, figura polêmica bastante popular entre os evangélicos hoje. E, por fim, o candidato do PMDB, Gabriel Chalita, possui laços estreitos com o movimento católico de renovação carismática, a Canção Nova. Não é preciso ser vidente para saber que, em maior ou menor grau, tais envolvimentos influenciarão os discursos e futuras negociações desses personagens públicos. 

Esse é o pano de fundo de um dos aspectos importantes da política brasileira nesses dias: a relação entre política e religião. Assumindo-se constitucionalmente como Estado Laico (que não possui religião oficial), o país tem agora o desafio de edificar o perfil de laicidade que aqui está se formando. Lembrando que dentre as principais características de um Estado que se pretende laico está a governança com equidade. Isso não requer dos políticos que sejam alheios aos temas ligados à religião, mas sim que suas posturas resguardem o tratamento igualitário entre todos os atores sociais. 

O palco das disputas em São Paulo, como se é de esperar, será um dos mais quentes da corrida eleitoral. Não apenas pela relevância política da cidade no cenário nacional, mas também pelas histórias e características pessoais de cada candidato, e nesse sentido a relação que estes têm com a religião entrará à baila. Assim, com uma visão otimista, o que se pode esperar dos acontecimentos políticos da maior cidade do Brasil é que os candidatos reconheçam o perfil protagonista que o município possui e apresentem-se como modelos de bom senso e equilíbrio no que se refere a esse e todos os demais assuntos tendentes a gerar forte polêmica. Vale reafirmar, essa é uma visão otimista...

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