23.8.12

Morar no céu?...


“Paraíso” é o delicioso jardim de descanso para o povo de Deus à espera da ressurreição. Quando Jesus declarou que havia muitas moradas na casa de seu Pai, ele usou a palavra monê, que tem o sentido de morada temporária.

*Wright, 2009, p. 59

Aquilo que pensamos acerca do pós-morte inevitavelmente influencia no que fazemos hoje. Infelizmente, alguns cristãos possuem a ideia de que, ao morrerem, irão para o céu, destino último de todos os herdeiros da salvação eterna. O problema não é acreditar que vão para o céu, mas pensarem que esse é seu destino final. Nesse modo de pensar, o mundo material no qual vivemos pouco ou nada tem de valor, já que os dias dessa terra estão contados e ela não será, de fato, aproveitada em nada.

Tal pensamento corrobora para uma postura alienada diante das demandas da vida, especialmente diante das responsabilidades humanas com respeito à criação. Os prejuízos que esse tipo de cosmovisão pode resultar são nefastos. Especialmente em tempos como os de hoje,  em que necessitamos, o quanto antes, de uma consciência global que reconheça a importância de atuarmos em prol da mitigação das consequências oriundas da devastação do planeta.

O texto bíblico, ao contrário do que muitos apregoam, anunciam a promessa de restauração do cosmo, apontam para um futuro no qual haveremos de viver em “novos céus e nova terra”. Para tanto, as ações de agora não são vãs ou desprovidas de significado eterno. O escritor sagrado em Apocalipse 14.13 afirma que nossas obras nos seguirão para além dessa vida. Em Romanos 8.22, o apóstolo Paulo afirma que a criação está subjugada a todo tipo de sofrimento – não por sua própria vontade, mas por conta da humanidade – e que espera por redenção.

Uma série de outros textos bíblicos corroboram para esse tipo de pensamento. Lamentavelmente, o que se tem ensinado nas igrejas cristãs e aceito pela maioria dos crentes é uma ideia não-bíblica, conveniente, limitada e conformista, que estimula um estilo de vida consumista, imediatista e pragmático, que não demonstra preocupação com o mundo material. Trata-se de um materialismo autodestrutivo. Uma vez que, conquanto se fale de céu, busca-se toda sorte de benefícios terrenos à custa da depredação dos recursos disponíveis no planeta.

De tal modo, a fim de que as comunidades cristãs venham manifestar de fato o Reino de Deus na terra, já instaurado no Cristo Ressurreto, que é a primícia da renovação de todas as coisas, faz-se necessário anunciar por meio de ações concretas o Evangelho. Em outras palavras, a pregação das boas novas não pode nem deve se restringir a discursos abstratos que não levam a ações práticas; a pregação das boas novas deve se dar por meio da vivência comunitária, por meio de um estilo de vida comprometido com o seu tempo, com o planeta, com a vida em todos os seus aspectos. A isso alguns teólogos chamam de missão integral. Que seja! Na verdade, não importa muito o nome que se dê, mas sim que aqueles que se dizem cristãos honrem tal alcunha e proclamem o Reino com suas vidas.

Importa ressaltar, contudo, que esse é um caminho estreito. Uma vez que comprometer-se com as demandas reais da vida implica em questionar o sistema em todos os sentidos, inclusive econômica e politicamente. Não há como falar em práticas sustentáveis sem tocar em questões como consumismo, justiça social, corrupção, dentre outros assuntos delicados.

Portanto, é preciso saber que o Evangelho não é um convite ao descanso, antes um chamado à luta, à militância e à subversão com fim de proclamar e produzir os valores do Reino. Certamente uma dura e sacrificada caminhada, contudo bastante promissora; afinal, o Reino que se anuncia agora já fora instituído, restando apenas sua concretização plena. 

*WRIGHT, N. T. Surpreendido pela Esperança. Viçosa: Ultimato, 2009. 

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