20.10.12

Pornografia e insatisfação sexual

Faz todo sentido que a pornografia tenha se tornado hoje uma das vias as quais mais se recorre em busca de prazer. A virtualidade está inserida em nosso cotidiano. Compramos pela internet, fazemos transações bancárias complexas por ela, estudamos, conversamos e, fatalmente, buscamos sexo. 

Sexo solitário aliado a toda sorte de fetichismo. O prazer está disponível nas telas planas (ou não) de um computador. Alguém já deve ter dito outrora que a tecnologia corroboraria para nossa desumanização. Há que pense ao contrário, claro! Talvez ela torne plenas algumas de nossas possibilidades. 

Com a pornografia, pode-se alcançar o prazer, excitar-se e gozar. Gozar muito, quantas vezes desejar. Porém, a mim me parece que falta algo. Alias, parece que a falta, a ausência, seja o principal problema da pornografia. Não há o outro, a parceira ou parceiro. Afinal, estamos a sós; ao final, encontramo-nos desamparados. 

A questão da solidão nesse caso é que uma ausência gera outra. A principal lacuna da sexualidade recorrente à pornografia é a do poder de dar prazer. Ora, pouca coisa é tão maravilhosa que o poder de dar prazer à outra pessoa. E essa é, além de uma possibilidade, uma das necessidades humanas mais concretas. Trata-se daquilo que todos buscamos: aceitação. É também uma questão de poder. Sentir-se capaz! Dar a alguém o êxtase de exaurir-se em momentos de prazer conjugando as sensações de aceitação e poder. Assim, sentimo-nos capazes, viris! Em outras palavras, “Yes, we can!”.

Tanto é assim que a grande frustração dos – ansiosos – ejaculadores precoces é extenuarem-se antes de suas parceiras. Óbvio que, se forem criativos, podem resolver isso de outras formas antes mesmo de sanarem a precocidade de seu gozo (mas essa é outra história). Retornando à pornografia e sua precariedade, talvez seja essa a razão de ela ser tão viciante. E, se você nunca teve problemas com isso, acredite: ela é viciante! Há um sem-número de pessoas viciadas nesse tipo de “prazer”. Indivíduos que não conseguem dormir sem antes passar horas diante de um computador assistindo a vídeos, vendo fotos, lendo ou ouvindo coisas excitantes a fim de aliviar o tormento do desejo sexual incontido e nunca absolutamente satisfeito – isso sem detalhar práticas e fetiches dos mais variados. 

Pra sociedade liberada de hoje parece mais do que natural recorrer a algum tipo de pornografia durante a vida em busca de satisfação. E, de fato, penso ser muito difícil algum ser humano – especialmente os homens – passar sem ter algum tipo de contato com esses conteúdos. Não obstante, quando essa busca transforma-se em uma forma padronizada de comportamento, ou seja, a única ou a principal via de prazer sexual, infelizmente já se transformou em patologia. 

Talvez uma das receitas aos adictos nesse tipo de material seja enfrentar a vida como ela é e sair à busca de alguém real a fim de desenvolver suas potencialidades biológicas e emocionais básicas. Somos seres relacionais, e sexo é relacionamento. É importante e saudável que desenvolvamos relações sexuais satisfatórias. Faz bem ao coração! – em todos os sentidos. Agora, aos mais tímidos, que porventura pensem que o sexo pago seja uma forma viável de contentamento, vale o recado: doce ilusão. Nesse caso também não haverá plenitude. Também faltará algo. Talvez o mesmo “algo” ausente na pornografia, o poder de dar prazer. 

Ainda que muitos homens se iludam acreditando que oferecem prazer às garotas de programa com quem saem, isso é invariavelmente raro – pra num dizer inexistente. Definitivamente, não há mutualidade. Como dar prazer sexual a alguém que faz sexo quase todos os dias e, se há algo do qual ela deve estar cansada, é de ver, tocar e receber o órgão sexual alheio? Portanto, a menos que se creia que o contrário é possível, no geral esse tipo de relacionamento, embora menos virtual e ilusório que a pornografia (se é que é possível afirmar isso!), também não trará completa realização pessoal. Ao contrário, pode até mesmo aumentar a sensação de incapacidade, afinal logo após o gozo vem a hora do pagamento. Nesse momento o indivíduo se recordará que é um dentre vários outros clientes, e que tudo aquilo foi meramente uma prestação de serviço. 

Das questões mais complexas que envolvem a pornografia e a busca pela realização sexual, penso ser o fator “mutualidade” a mais essencial. Por mutualidade entenda-se o desejo mútuo pelo outro, a disposição recíproca em ter e dar prazer. Infelizmente, nesses dias de proliferação de sites pornográficos de todos os tipos, dos sites e fóruns de acompanhantes e das agências de relacionamentos virtuais, que oferecem diversos escapes aos que temem se relacionar pessoalmente (ou ainda, responsavelmente), não raros são os que têm se afogado no mar da insatisfação. Bebendo água salgada na tentativa de matar a sua sede, muitos vão se tornando ainda mais sedentos.

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