14.11.12

Compreendendo a marcha

Às vezes eu releio alguns textos antigos depositados nesse blog e fico surpreso. Espanto-me pela evolução (ou seria involução?) das minhas ideias e sentimentos. Isso sem falar na escrita, pois se hoje escrevo com sofreguidão, imagine há anos atrás! Leio e vejo que muita coisa mudou...

Há textos que eu não escreveria hoje. Não teria coragem! E se escrevesse, não postaria. Há pensamentos que já não passam mais pela minha cabeça e sentimentos que já não fazem muito sentido. Alguns conceitos foram abandonados, alguns posicionamentos deixados de lado. Determinados sonhos ficaram para trás ou mesmo se transfiguraram em outra coisa.

Com tantas mudanças, penso se vale a pena deixar esse espaço ativo. Ou mesmo se vale a pena manter online textos que talvez já não tenham tanto significado para mim. Ou pior, manter textos que gerariam em mim certo constrangimento caso alguns dos meus mais novos amigos acabassem lendo-os. Afinal, como pude escrever determinadas coisas?...

Mas esses textos resistem, esse blog resiste, minha persistência em escrever insiste – ainda que não regularmente. Resistem os textos pois não posso negar meu passado, não há como rejeitar o que fui e as etapas pelas quais passei até chegar aqui. Estou em processo... Estamos! Ninguém nasce pronto, já sabemos. Estou em construção e obviamente que os últimos andares construídos possuem uma aparência distinta dos primeiros.

Ora, conquanto não seja fácil, preciso ser forte o bastante e assumir quem fui, quem sou e quem estou sendo com todas as minhas incongruências. C’est la vie! É a vida como ela é... Feliz ou infelizmente temos menos controle sobre nossas vidas do que gostaríamos ou imaginamos que temos. E o mais duro de tudo é quando de fato acreditamos realmente que temos muito controle sobre nós mesmos: o que resulta disso é a frustração.

A vida é como um rio caudaloso, agitado, belo, prazeroso, assustador às vezes, com muitos obstáculos inimaginados à nossa espera em cada curva ou descida. À melhor opção às vezes é segurar firme e deixar acontecer... Às vezes torna-se inútil lutar contra a correnteza ou tentar guiar o barco. Uma perda de tempo e energia.

Por entender essas coisas é que busco paz diante das mudanças e dos paradoxos da vida. Tento lidar com mais paciência com as dialéticas... Assumo, portanto, a precariedade da minha existência e, por consequência, do fruto do meu próprio trabalho. Meus textos, nesse sentido, encerram-se em registros quase autobiográficos que passam a contar mais sobre mim do que eu gostaria de aceitar.

E o blog? Bem, esse blog é um repositório. Um repositório de mim mesmo. Meus anseios, esperanças e desilusões estão aqui. E tudo está, obviamente, sujeito a reformulações. Assim sendo, lamento decepcionar aqueles que possam vir aqui em busca de imutabilidade e chão firme. Os seres humanos não são confiáveis nesse sentido... Somos precários demais para que sirvamos de porto seguro para quem quer que seja. Ao contrário, podemos ser bons companheiros de jornada e aventura, isso sim! Afinal, a vida é isso: uma jornada. Travessia!

Sabendo dessas coisas sigo em frente, insistindo em caminhar e, em algumas paragens, escrever uma coisa e outra, como parte da minha terapia de vida. Como parte da minha busca por compreender as coisas e aprender a viver com mais leveza e sobriedade.

E nessa viagem algumas trilhas sonoras estão sempre a tocar. E é exatamente com uma delas que eu quero encerrar essa conversa. Aliás, mais que uma trilha sonora, posso dizer, uma oração.



Hoje me sinto mais forte,
Mais feliz, quem sabe
Só levo a certeza
De que muito pouco sei,
Ou nada sei 




2 comentários:

Rubinho Osório disse...

Precário, provisório, incongruente, paradoxal, mutante, em construção perene, em processo, em viagem...
E que viagem!!! Com Almir Sater fica mais linda ainda.

Humberto Ramos disse...

Com certeza, Rubinho! Almir Sater é sempre uma boa companhia nesse sentido.

Abraços fraternos.

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