24.2.13

A #Rede: mantenedora de esperança

É óbvio que o surgimento de um novo ente político levantaria uma série de questionamentos. Um dos principais, o de que o Brasil já possui muitos partidos, sendo desnecessário constituir outros. E de fato, o país já tem uma razoável quantidade de siglas, passando a ser 31 com a consolidação da fundação da Rede Sustentabilidade, resultante do Movimento Marina Silva Presidente e que posteriormente firmou-se como Movimento Pela Nova Política (Sonháticos), até desembocar no empenho de formação de um novo sujeito partidário, que tem Marina Silva, Heloísa Helena e outras figuras conhecidas do cenário político como atores importantes desse processo. Assim, diante do questionamento – necessário – sobre se realmente necessitamos de mais uma sigla, pode-se mirar a questão a partir de um viés mais profundo, convertendo a pergunta em outra mais adequada: sobram-nos partidos políticos ou faltam-nos partidos relevantes?

É imprescindível questionar, afinal de tempos em tempos assistimos personalidades políticas de “peso” trocando convenientemente de partido e mesmo constituindo outros. Na grande maioria das vezes, tudo isso reflete apenas a manifestação de projetos personalistas que nada têm a ver com fazer política em prol da nação. No entanto, como diz o brocardo latino: abusus non tollit usum, o abuso de uma coisa não é argumento para seu desuso. Isto é, o uso nefasto que se faz do mecanismo constitucional que garante a pluralidade de partidos não justifica a renúncia do mesmo. 

Alguns analistas e militantes de partidos políticos, no entanto, tiveram imenso prazer em focar seu julgamento a respeito do novo partido nas palavras francas da ex-Senadora e ex-Ministra do Meio Ambiente ao dizer que a Rede “não seria nem de esquerda, nem de direita”, mas que estaria à frente. Com tal declaração, Marina rejeitou os rótulos de situação e oposição, afirmando que caminhamos rumo ao mundo do paradoxo.

Sobre a alegação de que a legenda seria oportunista e em cima do muro, há que se notar aí o perfil conservantista e dogmático dos que ousam fazê-la. Em tempos pós-modernos (hipermodernos ou de modernidade líquida, dependendo do referencial teórico), de um mundo secularizado e em constante fragmentação, que produz cada vez mais novos valores, tal alegação revela certa superficialidade. É chegado o tempo de transcender às categorias de “esquerda” e “direita”, de polarizações mesquinhas entre “governo” e “oposição” – em cujo ethos de litígio por amor ao litígio trava a evolução política do país. 

A desconfiança é compreensível, a descrença política, explicável. Porém, o parecer honesto e de bom-senso deverá reconhecer que Marina Silva e os companheiros que a seguem poderiam muito bem escolher uma trilha mais fácil caso desejassem meramente concretizar projetos pessoais. Poderiam ter fundado um partido logo após a saída do PV, não esperando, tampouco estimulando, um complexo processo gestacional de aproximadamente dois anos; ou mesmo teria sido viável outra filiação, afinal havia muita gente querendo o carisma da ex-ministra e seus 20 milhões de votos ao seu lado.

A Rede é um partido, não dá pra negar, mas propõe-se a se existir como uma malha entrelaçando fios (pessoas e grupos) nos mais distintos locais. Possibilitando a cada indivíduo ou organização participante falar a partir de seu lugar social. Em outras palavras, um partido que sonha em manifestar-se como um organismo vivo e saudável, no qual a utopia da horizontalização das relações e da democratização dos processos internos alimentará a militância de todos os participantes dispostos a se envolver realmente. 

Ora, assim sendo, tendo em vista que o novo partido será reflexo de seu tempo, do mundo em que ele já existe em forma de movimento e com o qual pretende se relacionar, como esperar a utilização de paradigmas ultrapassados, ou mesmo uniformidade dogmática cravando estacas à esquerda ou à direita? Rede é pluralidade, conexão entre diversos e distintos. Portanto, há e haverá gente de múltiplos habitats sociais; cultivando uma diversidade que se une, respeitando suas diferenças, diante daquilo que Marina Silva chama de “demandas do século XXI”. Nessa experiência, a sustentabilidade constituir-se-á como o elo central, orientação e é também a chave hermenêutica para a interpretação da realidade social. 

Obviamente um termo amplo e complexo (sustentável), e por isso mesmo cativante e desafiador. Contudo é inegável, o sustento da vida de cada pessoa nesse planeta massacrado pela ação irresponsável do ser humano depende do reconhecimento urgente de que precisamos deixar nossas diferenças de lado e trabalhar uns com os outros, uns em favor dos outros. Unidos nas coisas essenciais, respeitando a todos nas diferenças secundárias, convivendo com amor – ou, no mínimo, tolerância – em todas as coisas.

A REDE nasce da esperança de levar adiante desenvolvimento e maturação da nossa recente democracia. Ela brota da expectativa de trabalhar na contramão da lógica atual de busca do poder pelo poder. Ao invés de meramente ser oposição ou situação, ser protagonista do novo. Acima de tudo, de protagonizar a esperança. É certo que não há espaço para a ingenuidade, afinal o partido é constituído por seres humanos e tudo o que é humano é precário e limitado. Ainda assim, a esperança é possível. Do meio das limitações e incertezas é viável alimentar o ânimo de um sem-número de pessoas a fim de que, ao invés de manter sua descrença na política, passem a enxergar a luz da esperança no final do túnel. Contudo, não uma esperança infantil, que acredita em conquistas sem lutas, militância sem abnegação, empenho e boa vontade, mas uma expectativa viva de que, por meio da ação conjunta, até o inconcebível pode acontecer.

2 comentários:

Kenner Terra disse...

Disse certa vez que Marina Silva foi uma possibilidade de não anulação de voto, pois faltava-nos (ou pelo menos me faltou) alguma opção equilibrada seria uma quase: "ainda bem que vei"! Agora, a Rede torna-se uma luz. No esvaziamento do sentido dos partidos, que deixaram de ser locus de promoção e defesa de propostas ideológicas para tornarem-se sinônimo de benefícios partidários, encontraremos nesta iniciativa Marina/Heloisa os fatores que me são indispensáveis para filiação, os quais sempre senti falta nas opções que até hoje tivemos. Por isso, aproveitemos este momento da democracia brasileira, pois significa novos caminhos, nova política, relampejo de mudanças...

Kenner Terra disse...
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