22.2.13

Por uma cultura de paz no futebol

O futebol é um esporte com muitas facetas, é um lazer, um entretenimento e pode mesmo ser tomado como religião. Seu time, sua religião. O problema é que, como toda paixão, pode levar indivíduos a atos irracionais. Além disso, as torcidas de futebol também constituem hoje redes nas quais indivíduos não apenas se inserem para confraternizar e comungar as mesmas alegrias e tristezas mas também para manifestar em conjunto defeitos de caráter e, por conseguinte, ações criminosas. 

Não foram poucas as vezes em que os noticiários esportivos tiveram sua atenção ofuscada pelas notícias de cunho criminalístico. Vez e outra encontros marcados via redes sociais por torcidas rivais, emboscadas de “organizadas” a indivíduos e grupos de torcedores rivais estampam as manchetes dos principais veículos de comunicação. Famílias inteiras, amantes do futebol, deixam de participar dos espetáculos devido ao medo da violência. 

Nesta última quarta-feira, 20, na cidade de Oruro, na Bolívia, no jogo entre Sport Clube Corinthians Paulista versus San José, um torcedor de apenas 14 anos de idade – do time da casa – foi atingido por um sinalizador naval e veio a falecer. Os responsáveis, ao que tudo indica, são torcedores do time brasileiro. Estão detidos provisoriamente para o andamento das investigações pelas autoridades bolivianas. 

Os jogadores do Corinthians, assim como sua comissão técnica, mostraram-se consternados ao saber do ocorrido após o término da partida. O “comandante” Tite fez declarações visivelmente emocionado. Ninguém espera que um evento organizado para o entretenimento, para o prazer de um enorme público, venha a se converter em uma tragédia tão banal quanto essa. 

Por conta do ocorrido, a equipe brasileira será punida, por meio de medida cautelar, com a obrigatoriedade de jogar todas as partidas em que for “mandante” – isto é, quando receber uma equipe em seu estádio –, com os portões cerrados. Ou seja, sem público, consequentemente, sem verbas arrecadadas nesses jogos. E quando jogar fora, a equipe anfitriã estará também proibida de reservar cotas de ingressos para a equipe corinthiana. 

Tal punição tem conformidade com o recém-elaborado Código Disciplinar da Conmebol, que afirma a punição das equipes de futebol por maus comportamentos advindos de suas torcidas, mesmo que não tenham sido incitados pelo clube de futebol. Isso porque, assim como a Confederação paulista e a própria Confederação Brasileira de Futebol, a entidade sulamericana considera as torcidas como extensão das equipes oficiais. 

Esse entendimento é louvável, afinal gera a responsabilidade objetiva dos times de futebol a respeito das condutas de seus torcedores. O que, caso se leve esse esporte/produto mais a sério na América Latina, deverá produzir nos cartolas o bom-senso de re/educar suas torcidas por meio de campanhas e outras muitas ações orientando-as para o convívio respeitoso com outros torcedores tanto nos estádios como fora deles. 

Porém, pelo que se tem visto, ainda falta muito para que os Estádios de Futebol sejam considerados lugares habitualmente seguros e torcidas organizadas apenas como agremiações de pessoas que nutrem as mesmas paixões. As legislações das confederações nacionais e até mesmo o fresco Código Disciplinar da Conmebol se revelam bastante precários para solucionar de vez o problema da violência ligada ao mundo da bola. 

Infelizmente, para se cultivar uma cultura de paz no futebol, será necessário profundo rigor com os torcedores, especialmente com as torcidas organizadas, nas quais muitos criminosos se infiltram para poder cometer suas atrocidades ocultados pela identidade coletiva oportunizada pelo sem-número de afiliados que marcam presença a cada jogo nos estádios, o que dificulta terrivelmente a identificação desses indivíduos para fins de punições penais concretas. 

O que aconteceu nesse jogo da Libertadores não foi fatalidade, como tentou explicar o mandatário corinthiano Mário Gobbi. Quando uma vida é extinta como resultado de uma prática previamente condenada (sim, a legislação sulamericana já previa punições para os clubes pelo uso de sinalizadores, fogos de artifícios, dentre outros), não se pode esconder atrás do fatalismo. Há de se assumir com responsabilidade que algo está realmente errado, portanto uma postura responsável deve ser tomada. Ninguém pode acreditar que um componente tão potencialmente lesivo quanto um sinalizador naval seja lançado em direção a um grupo de seres humanos sem que o agente tenha tido o ânimo de prejudicá-los.

Tomara que a punição cautelar ao Corinthians prevaleça. Embora ela não traga de volta a preciosa vida daquele adolescente, o prejuízo financeiro a ser sofrido pelo clube certamente o conduzirá a tomar medidas drásticas que venham a coibir atos de vandalismo por parte de sua torcida. Mais ainda, servirá de exemplo prático para que as outras equipes de futebol, do Brasil e todos os outros países que ainda sustentam uma legislação frouxa e permissiva, assumam a dianteira de medidas pró-ativas em relação à esse respeito.

Agir preventivamente, por meio de medidas educacionais, com certeza é bem mais producente que apenas reagir às tragédias. Esse perfil reativo presente nas instituições latinoamericanas, tanto entre autoridades públicas quanto privadas, necessita urgentemente ser trocado por posições sérias, responsáveis e, acima de tudo, competentes, diante de suas funções.

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