29.8.13

Médicos Negros

Não consigo me recordar quantos médicos negros me atenderam durante minha vida inteira. Tampouco me lembro se algum dentista negro tenha examinado meus dentes. É evidente, não lembro porque não houve. A bem da verdade, desconfio que nunca tenha estado diante de um médico ou médica que tivesse a cor um pouco mais escura do que a minha (que me reconheço como pardo). Sabemos bem a razão de tão poucos afrodescendentes nesta profissão em nosso país. 

A medicina sempre foi e ainda é uma atividade profissional elitista. As faculdades particulares destinadas às ciências médicas são caras; por sua vez, as universidades públicas possuem exames rigorosos demais para o padrão de educação que uma menina ou menino negros, de renda baixa, chegaram a ter em sua vida escolar em escolas municipais ou estaduais. 

Há quem possa dizer que é tudo uma questão de empenho. Com um pouco esforço é possível chegar lá! Dizem tais coisas enquanto seus filhos estão voltando da natação, sendo esta parte da aula de Educação Física ministrada em algum colégio privado, com mensalidades que podem ser até mais altas do que o salário mínimo de um trabalhador brasileiro. A superficialidade na análise de problemas crônicos – e difíceis de serem resolvidos – tem uma função: aliviar a consciência de quem não faz nada para contribuir com a transformação da realidade. 

Agora, entretanto, assistimos à chegada de médicos de diversos cantos para atenderem no Brasil em lugares de clara precariedade. Dentre estes, a maioria é cubana. Cubanos, hispânicos, negros. A sociedade brasileira não apenas se chocará ao encontrar mais médicos negros do que costuma ver em um hospital, como também se defrontará com o fato de que essas pessoas lhes falarão com sotaque de gente que fala espanhol. 

Os médicos cubanos, especialmente os negros, nos servirão muito. Sua presença em terras tupiniquins realçará nossos preconceitos mais diversos e quebrará um forte paradigma social: a de que “doutores” geralmente são pessoas branquinhas com cabelos lisos. Para uma menina negra, da periferia, deparar-se com profissionais que lembram suas próprias características físicas, dar-lhe-á a sensação de que também pode chegar lá. De que não está relegada apenas a um grupo específico de atividades na sociedade. 

Em um país no qual os negros ainda não ascenderam significativamente, ainda carecem de empoderamento em diversas instâncias, no qual atores e atrizes negros são convocados em maior número quando surge uma novela de época (por razões óbvias), esses médicos servirão de inspiração para muitos. Eles também podem contribuir para que, enfim, essa classe profissional comporte-se melhor diante da sociedade brasileira, deixando para trás a empáfia com a qual muitos demonstram visivelmente seu sentimento de superioridade. Que passem a tratar seus pacientes não como se prestassem algum tipo de favor, uma caridade, mas uma prestação de serviço profissional, pelo qual se está sendo remunerado! 

E, por fim, que contribuam para a ideia de integração de nosso povo com os outros irmãos e irmãs da América Latina. Que seu sotaque nos instigue a desejar conhecer mais sobre a vida fora do Brasil porém dentro de nossa América. E não só isso, que o espanhol receba guarida entre nós, proporcionando que nos seja transmita a preciosa cultura de nossos irmãos latinos, tão próxima e às vezes tão distante de nossa vivência cultural. 

Agora, as questões trabalhistas dessas pessoas, as discussões que têm surgido a esse respeito, podem realmente suscitar questionamentos sérios acerca das relações internacionais entre Brasil e Cuba, em última instância, sobre como nosso país se comporta no cenário internacional no que diz respeito a direitos e garantias trabalhistas de seus profissionais e de profissionais estrangeiros que aqui operam. 

Entretanto, enquanto isso tudo continua a ser discutido, o que mais me empolga é que podemos olhar com esperança as possíveis e benéficas consequências sociais advindas desse projeto.

Um comentário:

Carlos Beltrán disse...

Nossa! que texto lindo Humberto! cheio de paixão, criticidade, e solidariedade. encheu-me. ;)

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