31.10.13

Vandalismo e resistência

Um jovem de 17 anos é assassinato na periferia de São Paulo. Manifestantes indignados ocupam a Rodovia Fernão Dias em protesto. Ônibus, caminhões e carros de menor porte são queimados. Pelo rádio, televisão e internet somos todos informados que “vândalos” estão nas ruas causando destruição e saqueando lojas. A grande mídia não se preocupa com análises sociopolíticas. E caso se preocupasse, dificilmente tenderia a uma análise ampla e humanitária. 

Poucas coisas chamam tanto a atenção no país quanto à corrupção policial e a precariedade dessa instituição. E antes de seguir, importa afirmar claramente minha posição acerca da PM, a fim de não parecer injusto. A Polícia Militar é o cão de guarda do Estado, muito mal utilizada ainda nessa função, menos ainda quando se trata de oferecer segurança à população em geral. 

Sua atuação como cão de guarda é medonha, porca e cruel. Em manifestações sociais, vê-se sua função na aplicação da violência estatal, e quanto ao seu papel de preservação da segurança, sua precariedade e corruptibilidade são evidentes. Assim, temos uma polícia cada vez mais corrupta, cada vez mais precária e que a cada dia goza menos do respeito da população. 

E o que dizer da violência nas manifestações? São pequenas, são ínfimas perto da violência física e simbólica impetrada nos corpos de gente da periferia pelos policiais e suas ações abusivas; também o são em relação à atuação insatisfatória do Estado em garantir os direitos sociais mais básicos aos cidadãos. 

Há uma atmosfera de indignação. Enquanto isso, a mídia prefere chamar as consequências dessa indignação de atos de vandalismo. Assim, o cidadão desavisado, incauto, volta seu olhar à suposta violência material ao invés de se atentar à necessidade de enfrentar o sistema. O Estado precisa ser freado, para não esmagar e engolir as massas. Precisa ser freado pois atua a serviço do capital, em detrimento das necessidades básicas dos cidadãos e cidadãs. 

Caminhões e ônibus queimados não têm a menor importância diante da vida desse adolescente, que fora ceifada sem que ele mesmo pudesse entender a razão. Segundo consta, teria perguntado ao militar que desferiu o tiro “Por que atirou em mim?”. A indignação é justa. A quebradeira, o suposto vandalismo, é apenas o sintoma físico que sinaliza para o adoecimento dessa sociedade, uma doença que tem nome: desumanização. 

Enquanto a mídia atrapalhar o diagnóstico, enquanto a população continuar enganada por opiniões simplistas do tipo “polícia neles”, não haverá solução e o confronto seguirá. Talvez piore. Não há mais espaço para a superficialidade. Os excluídos dessa sociedade sairão às ruas, deixaram suas periferias (geográficas e existenciais) e passarão a incomodar aqueles que ainda vivem em conforto. 

A sociedade é um organismo. E por mais que alguns preguiçosos acreditem que dá para viver bem enquanto uma imensa parcela vive mal, a realidade revelará a verdade. Se parte do organismo vai mal, todas as outras partes sofrerão as consequências. 

Os “vândalos” estão aí, e não sossegarão enquanto não houver as reais mudanças desejadas.

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