3.5.14

Contra o suicídio político

Navegar nas redes sociais disponíveis na internet possibilita ao observador mais atento fazer uma análise de como está a saúde política da população. Embora não sejam ainda todos os cidadãos e cidadãs que tenham acesso à internet, boa parte da população está presente nessas redes. É bem possível que as diversas classes e formas de pensar estejam representadas nesses espaços.

Daí ser importante explorar esse ambiente com certa cautela. Especialmente no que diz respeito à política. Hoje, todos compartilham postagens apoiando ou criticando fatos, ideias e as mais diversas situações ligadas ao mundo político. Se por um lado o debate pode ter se ampliado, por outro sua qualidade foi-se esvaindo como o orvalho ao romper do sol.

Uma leitura rápida do que se tem publicado e discutido via Facebook e Twitter, por exemplo, revela que há duas formas bem distintas porém parecidas de se compreender o cenário político atual. Há aqueles que pensam que o Brasil está em um fundo de poço como jamais esteve; e há aqueles para quem o nosso país vive um momento ímpar em sua história democrática.

Os primeiros são, evidentemente, o pior grupo. Seu pessimismo desconsidera nossa história e suas consequências, não leva em consideração os avanços e conquistas nas mais diversas áreas. Afinal, somos uma democracia de apenas 26 anos, que caminha, ainda que lentamente, rumo à libertação plena do peso histórico-cultural de uma pesada colonização e terrível cultura escravagista, além da herança de alternadas ditaduras (sendo a última delas a pior).

Cada um desses fatores é responsável por um legado de atraso, por traumas político-sociais imensuráveis. Estando impregnado por um bom tempo (talvez ainda esteja em parte) um espírito de repúdio por nós mesmos, um ceticismo político, e, em contrapartida, uma infantil veneração do estrangeiro e consequente rejeição dos bens e riquezas contidos em nossa própria raiz cultural. Como já foi dito anteriormente: “O Brasil não é popular no Brasil!” (Nelson Rodrigues).

Ainda com Nelson, parece-me que vez e outra a síndrome de vira-latas encontra guarida no coração de alguns dentre nós, de forma tal que voltamos nossos olhos para as nações do norte, antigas exploradoras de nossas riquezas e atuais dominadoras da economia internacional, a fim de prestar-lhes indevida reverência. Lamentável comportamento!

Com tudo isso, a despeito desse ethos questionável, devido à esperança sustentada por alguns (que resistiram aos piores momentos da nação) de nossos melhores quadros, chegamos até aqui. Somos a sexta economia do mundo, cheia de precariedades; porém com imensas conquistas e possibilidades. De fato, não estamos tão bem quanto diz o desejado, há muito o que deve ser trabalhado. Entretanto, também não estamos à beira do precipício como vaticinam alguns “urubuzólogos”.

O otimismo é ruim, pois gera a ilusão de que não precisamos lutar; já o pessimismo resultaria em uma inércia mórbida, uma frustração acachapante, que só nos legaria a infertilidade. E não há maior arma contra a política – contra o bom e saudável desenvolvimento democrático – do que a decepção e niilismo consequentes do pessimismo. Ele é o responsável pela frigidez política que de tempos em tempos toma conta da população.

Os pessimistas não possuem propostas, só lamentos. Deprimidos, seu caminho aponta para o suicídio político. Não permeiam suas análises críticas com a esperança, portanto não lhes sobra nada além da alienação de toda e qualquer via que proponha a concentração de esforços em favor de se conquistar bens de valor comum a todos, e que venham a se enraizar em nossa história a fim de beneficiar as outras gerações. O pessimista vive de carniças e carcaças, não consegue enxergar terras férteis e menos ainda frutos não corrompidos pela precariedade de nossas ações e estruturas sociais marcadas por nossas misérias.

Só há uma alternativa a esse espírito e a essas pessoas: a esperança. Um análise crítica permeada de esperança (que é força propulsora) constitui um dos mais importantes instrumentos capazes de contribuir com uma leitura sóbria e uma militância vívida: a esperança crítica. Com ela celebramos as conquistas e elencamos as deficiências encontradas no processo, e, num segundo momento, elaboramos propostas e planos de solução para o que ainda está por fazer.

Mãos à obra!

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