19.7.14

A morte do pássaro encantado

O pássaro encantado já estava velho. Em sua vida longa, voara por todas as partes do mundo. Voava para sentir saudade, porque sabia que é na saudade que o amor cresce. Mas voltava sempre para contar estórias para uma menina que ficara à sua espera. Agora estava cansado. Suas asas já não eram as asas da mocidade. Lembrou-se de quando era criança. Lembrou-se do seu deslumbramento ao ver os céus cheios de estrelas. Diziam que era entre as estrelas que moravam os deuses. Abriu suas asas e voo para chegar à morada dos deuses. Ele queria chegar aos deuses para pedir-lhes que descessem à terra para enxugar as lágrimas dos que sofriam. Mas chegando lá, nada encontrou, apenas o vazio. Os deuses haviam emigrado, abandonando-nos órfãos.

Lembrou-se então dos seus voos em busca dos heróis, que haveriam de transformar o mundo. Mas, quando os conheceu, achou-os pequenos, mesquinhos e cheios de ódio. Não amavam nem música nem poesia. Só falavam sobre lanças e espadas.

Lembrou-se da sua passagem pela casa da ciência, morada dos homens da verdade. Mas percebeu que ali os homens não tinham asa. Andavam cuidadosos olhando para o chão, com medo de tropeçar e cair. E os diplomas que distribuíam eram fetos mortos fechados em tubos de ensaio.

Lembrou-se então do seu encontro com a poesia e as crianças. Foi aí que encontrou alegria. Foi aí que começou a contar estórias. Para as crianças. Porque elas são leves, sabem rir e sabem chorar.

Aconteceu, então, que uma menina se apaixonou pelo Pássaro e lhe disse que viveria com ele até o fim da sua vida. O Pássaro também a amou e disse que viveria com ela até o fim da sua vida.

E, como em As mil e uma noites, contou-lhe muitas estórias. Contou-lhe sobre um mercado onde namorados se encontravam e andavam de mãos dadas. Contou-lhe outra sobre trens que levavam a lugares de ternura. E estórias sobre gargantas cortadas nas rochas e montanhas sob a chuva que caía, de pontes cobertas com tristes finais de amor, de bosques de árvores brancas, de serras tão altas que encostavam nas estrelas, de geleiras frias de gelos brancos e azuis, de lagos límpidos onde sereias nadavam nuas, de cachoeiras encantadas onde moravam elfos e guinomos, de lobos e falcões que se amavam sem poder se tocar, de uma pedra encantada à beira da cascata onde namorados se amavam.

A menina se sentia iluminada pelo canto do Pássaro e lhe cantarolava, sorridente: “You are my Sunshine...” Sim, o Pássaro encantado iluminava o rosto da menina como o sol. E o rosto da menina iluminava o rosto do pássaro como a Lua. E assim foi, por muito tempo. O Pássaro voava. A menina sentia saudades. Ele voltava, e eles se amavam.

Aconteceu, entretanto, que ao voltar de uma viagem (o pássaro lhe trouxera um presente de amor), ele notou que algo acontecera com a menina. Ela o recebeu com rosto sério e lhe disse: - Alguma coisa aconteceu dentro de mim. Meu coração mudou. Preciso partir porque suas asas duras não podem me levar aos lugares suaves onde quero estar...

Foi só então que o Pássaro notou que levíssimas asas de beija-flor haviam crescido nas costas da menina. Ela se preparava para partir.

A menina partiu. O pássaro ficou.

Ele sentiu então um grande cansaço. Quando o amor parte, o cansaço vem. Olhou para a montanha encantada que se erguia longe, no horizonte. Ali crescia a árvore do fruto mágico vermelho que incendiava àqueles que o comiam. Era o fruto do amor. Amor incendeia.

Diziam que a Fênix o comia para incendiar-se, transformar-se em cinzas, para renascer cem anos depois.

Sentiu que a montanha encantada o chamava. Abriu então as suas asas e voou sem parar e sem se cansar, até que chegou. O fruto mágico, vermelho como fogo, pendia de um galho.

Tudo correu mansamente. O pássaro comeu o fruto vermelho do amor e seu corpo se incendiou, suas penas se desprenderam do corpo e voaram para longe, levadas pelo vento. Em cada uma delas, estava escrita uma das estórias que ele contara para a menina. E elas voaram por todo o mundo.

Lembra-se do filme Forest Gump? Ao final uma pequena pluma flutuava no ar, nela estava escrito a estória que você acabou de ler...


Rubem Alves, Cantos do pássaro encantado, Verus Editora, p. 108-110. 

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