20.7.14

Adeus, Pássaro Encantado

Gosto de caquis. É certamente minha fruta preferida. Não esqueço a primeira vez que a experimentei. Estávamos no fundo do quintal, enquanto nosso vizinho cortava algumas árvores a fim de construir um muro. Meu pai pegou a fruta e me deu. Embora doce, ainda estava um tanto verde. Amarrou meus lábios (algumas frutas, quando verdes, deixam nossa boca como que ressecada, é difícil de explicar).

Depois, muito depois, tive contato com os escritos de Rubem Alves. Dentre as várias estórias que contava, minhas preferidas são as relacionadas com o paladar. A experimentação dos sabores da culinária, as delícias da comida mineira, as frutas, e, por fim, os caquis.

Rubem sempre repetia, onde quer que fosse, que a maçã não teria sido de modo algum a fruta proibida do Éden. Não faria sentido, era pudica demais. Difícil de ser desnudada e, quando sem a casca, ao ser mordiscada liberava um som doído, quase de resistência. Já um caqui maduro – ah, nada mais convidativo! – nele abunda sensualidade. Sua aparência parece nos convidar: “Me come!”.

Caqui é fruta que se come lambuzando-se. É como sexo. Não dá pra ser pudico demais. Não é bom quando se tem receio de se impregnar do outro. De ficar com cheiro e sabor da fruta que se saboreia.

Nunca mais comerei caquis sem me recordar desse mineiro. Jamais me esquecerei de quantas coisas floresceram em meu coração e, consequentemente, em minha vida depois do contato com a beleza dos versos doces desse contador de estórias.

Rubem Alves se foi. Mas já havia nos avisado. Afirmando que o amor deixa partir. Sugerindo que o Pássaro Encantado um dia comeria do fruto vermelho que incendeia os que lhe experimentam e suas cinzas se espalhariam pelo vento. Foi mas fica! Porque “aquilo que o coração amou fica eterno”.

Por isso, sinto que ele está sempre presente. Pois na relação de amor que se deu pelas letras, pelo processo antropofágico, degustei de sua obra de carne e sangue, de modo que agora já faz parte de mim. Assim como faz parte de tantas outras pessoas que se inspiram em seus versos poéticos.

O nosso Rubem era um mineiro de uma Minas mítica, que só existe em nossos corações... Uma Minas tão ampla que havia também em São Paulo, no Rio Grande do Sul, no Nordeste, em cada canto onde a simplicidade reinasse... O que permitiu a cada leitor experimentar um pouquinho do que ele viveu e contou. Não nos dizia tantas coisas novas, dizia-nos coisas que já sabíamos em nossos corações e algumas vezes havíamos esquecido. Confluência!

Como rios que se encontram e se misturam, e já não são mais os mesmos - assim foi meu contato com esse querido autor. Parafraseando Guimarães Rosa, Rubem não morreu, ficou encantado.

Até breve, Pássaro encantado!... 

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