25.10.14

Nova Política: da esperança à frustração















Considero profundamente rica a experiência que tive no processo de formação da #Rede Sustentabilidade, iniciativa que buscava a criação de um partido político, tendo Marina Silva como sua principal fonte de inspiração. As reuniões das quais participei, as atividades elaboradas em prol da formação política, as pessoas que conheci, tudo foi bastante proveitoso. Naquele tempo, até escrevi um texto no qual me referia à #Rede como uma via mantenedora de esperança. Essa era uma das frases prediletas de Marina Silva àquele tempo.

Não obstante, o tempo passou. E com ele muitas coisas ficaram para trás. A #Rede, que havia sido pensada tendo em vista os questionamentos sobre a relevância dos partidos existentes, aos poucos passaria a não se diferenciar tanto desses. Como se sabe, o indeferimento do registro do partido pelo TSE resultou na aliança entre #Rede e PSB (Campos e Marina). Saída que, para muitos dentre os fundadores da legenda, não condizia com os valores preconizados pelo Estatuto nem com o histórico percorrido por todos nós naquele processo.

Ainda assim, Marina Silva era o nó catalizador de todas as conexões da #Rede. Sua decisão arrastou consigo quase que a totalidade dos militantes, embora tenha havido significativas baixas. De lá para a cá, os rumos tomados por Marina Silva sinalizavam para lugares cada vez mais obscuros. Porém, mantinha-se o discurso de que deveríamos transcender às categorias de “direita” e “esquerda”. Hoje vemos o quanto esse discurso se tornou furada e o quanto, na prática, nunca foi realizado. Gerando apenas confusão e deseducação política.

As coisas pioraram após o falecimento do então candidato Eduardo Campos. Marina Silva deveria agora levar adiante a candidatura à presidência abandonando a confortável posição de vice. Foi aí que a candidatura pela Nova Política foi se convertendo em uma candidatura claramente à direita com discurso sofrível de superação daquilo que fora convencionado como sendo de velha política.

Propostas medonhas, como a independência do Banco Central, foram constantes no discurso da candidata. Embora essas e outras falas não condissessem com a trajetória da morena magrinha que veio dos seringais, a boa pontuação nas pesquisas eleitorais (que lhe lançavam no segundo turno), fez com que Marina e a #Rede se sustentassem por mais tempo, ainda que sob uma postura alienígena diante de tudo o que se havia decidido, vivido e praticado durante o processo de formação do movimento que pretendia ser um partido.

Em pouco tempo, Marina e sua candidatura pelo PSB foram do céu ao inferno. Conferidas as urnas Brasil afora, Marina Silva não havia tido os resultados esperados. A tão questionada polarização PT-PSDB protagonizaria mais uma vez o pálio eleitoral.  Ora, como se posicionaria então a candidata que se intitulava como terceira via? Depois de protelar a decisão, Marina e seu staff declaram em entrevista que ofereceriam apoio a Aécio Neves, do PSDB. Nada mais estranho. A ex-militante do Partido dos Trabalhadores, advinda das Comunidades Eclesiais de Base, da CUT, e de tantas outras lutas se rendia agora à alternativa (grupo político) que nunca, nem de longe, sinalizou para as pautas que durante toda a sua jornada ela sustentou. Mágoa com o PT e sua dura contestação e desconstrução da imagem de Marina Silva durante a campanha? Ela se apequenaria tanto assim ao ponto de deixar que sentimentos tão privados se sobrepusessem à sobriedade política? Não sabemos, não importa mais agora.

A insustentabilidade da aliança gerou mais baixas e também cindiu a #Rede que já não se apresentava mais como tal, mas sim como uma colcha de retalhos formada pelo que restou de um grupo profundamente engajado, vívido e esperançoso. Valores tão relevantes como consenso progressivo e horizontalidade pareceram naufragar diante das decisões autocentradas da líder ambientalista, obviamente sustentada por um grupo importante de articuladores políticos (profissionais) e mantenedores financeiros.

O discurso de Marina Silva vinha se tornando cada vez mais solúvel. A ideia de sustentabilidade abriu espaço para discussões acerca de economia e um discurso moralizador que, mesmo na #Rede, só teria sentido se fosse aplicado apenas à própria candidata e a alguns poucos. Ao que tudo indica, a #Rede se afundou e não se sabe ainda se alguém poderá fazê-la emergir outra vez. Foi com ela a esperança plantada por Marina Silva na alma de cada militante que já não suporta mais seguir nesse processo.

O bom-senso e a sobriedade nos convidam, então, a pensar sobre tudo isso, revisitar essa experiência e tirar algumas conclusões a fim de encontrar algum alento. Faz-se necessário então lembrar que o grupo reunido e cativado por Marina constituía-se de pessoas de todos os cantos, lutas e formação política distintas. Um grupo demasiado plural.  Algo muito interessante, se se tratasse de uma ONG ou coletivo, como uma vez alguém já disse. Mas em se tratando de um pretenso partido, em algum momento o caldo iria entornar. Como sustentar as mesmas posições em um grupo tão heterogêneo? Se entre partidos consolidados, como, por exemplo, o PT, que se declara socialista, há uma série de tendências políticas, imagine em um movimento que se constituiu sobre uma base tão insólita?

A despeito de toda a pluralidade, o que se assistiu foi o estreitamento dos laços de Marina com algumas figuras da #Rede advindas da direita. Isso talvez explique a debandada da ambientalista em direção ao PSDB no segundo turno. Se outrora havia gente de diversos habitats sociais ao seu lado, seu grupo de influencia fora se restringindo mais e mais. A diversidade na unidade parece que também ficou só no discurso. Marina Silva foi engolida pelo processo que ela mesma deu início ao sustentar um discurso tão líquido (como diria Baumann).

Hoje, quem é Marina Silva? O que sobrou da #Rede sustentabilidade? Essa iniciativa política tem ainda força moral para realizar internamente as reformas que gostariam de contribuir para que se realizasse no Brasil? Não são agoureiros nem pessimistas os que sustentarem que não. Afinal, se outrora a #Rede se apresentava heterogênea demais, agora talvez se mostre lamentavelmente amorfa demais.

Revendo esse processo, recordo-me que estava dentre os que achavam que o Movimento pela Nova Política não deveria se converter em partido. Éramos muitos os que achavam que deveríamos militar, como a própria Marina gostava de dizer, pelas bordas. Advindos da periferia da política, teríamos mais força moral para influenciar o centro de poder do que inseridos no sistema. Hoje se vê que não haverá de fato mudança significativa sem que ocorra uma profunda reforma política em nossas estruturas. Reforma esta que deverá ser a base para uma série de outras que ainda seguem pendentes, como a Reforma Agrária e a Tributária.

Marina Silva, que pretendia ser mantenedora de esperanças, infelizmente sairá dessas eleições com um capital político bem menor do que já tivera. Talvez já não consiga mais preconizar os clamores por um novo jeito de fazer política. Aliás, o que vem a ser essa nova política? Acho que nunca ninguém entendeu muito bem. Apesar dos pesares, foi bom enquanto durou. Só não durou muito. Aos que ficaram viúvos desse discurso, resta levantar a cabeça e buscar outros caminhos para voltar a alimentar seus sonhos. 

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